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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Eburobrittium

Segundo o site Portugal Romano:

No século I, o autor romano Plínio-o-Velho, escreveu acerca das cidades romanas na costa atlântica da Península Ibérica, referindo a existência de uma cidade, designada por Eburobrittium (Plínio N.H./IV/4/113), localizada algures entre Collipo e Olisipo.

Todavia, nos seus escritos, o autor não referiu qual a sua localização exacta, o que na ausência de quaisquer vestígios materiais, levou a que diversos autores tenham, ao longo dos tempos, procurado estabelecer a sua localização.

Assim, Bernardo de Brito, situou-a em Alfeizerão, Diogo de Vasconcelos em Évora de Alcobaça, Borges de Figueiredo perto de Pataias e Eduíno Borges de Garcia em Amoreira de Óbidos. Mais recentemente, estudos de Pedro Barbosa apontavam para Perreitas enquanto Jorge Alarcão e Vasco Mantas, foram quem mais se aproximou, sugeriam já uma localização próxima de Óbidos.



Em 1994 durante os trabalhos de construção do IP6 e do IC1 perto de Óbidos, foram postos a descoberto alguns vestígios arqueológicos da época romana que pelo interesse suscitado, conduziram desde logo a trabalhos de escavação do local.

A dimensão e tipologia dos vestígios rapidamente permitiram concluir que não se estava perante as ruínas de umavilla, mas sim de algo muito mais importante, uma cidade dotada de um fórum de dimensão apreciável e de um conjunto termal importante, descrição que encaixava perfeitamente na cidade perdida de Eburobrittium.


A partir dos dados entretanto obtidos, admite-se hoje que Eburobrittium se tenha desenvolvido a partir do final do séc. I a.C., sobrevivendo até à segunda metade do século V d.C. Seria inicialmente um
oppidium stipendiarium, os seus cidadãos estariam inscritos na tribo Quirina.

Foi sede de civitas, após promoção Flaviana é denominada Municipium Flavium Eburobrittium, inseria-se noConventus Scallabitanus, compreendendo um território que se estendia por uma área que confinava com as civitas de Collipo (Leiria), Scallabis (Santarém) e Olisipo (Lisboa).

Parece ter sido uma cidade aberta, sem capacidade de defesa, aspecto que terá levado ao seu abandono no âmbito dos conturbados tempos que marcaram o declínio do Império Romano. Terão sido por certo as preocupações de ordem defensiva, aliadas a eventuais alterações da geografia local (com o recuo das águas da Lagoa) que terão motivado a “reinstalação” do burgo no local onde hoje se encontra a vila de Óbidos.

Se assim for e tendo em conta o elevado grau de destruição dos edifícios, em altura, é de admitir que alguns dos edifícios da actual vila, possam integrar materiais originais da antiga cidade romana.

Certo é que para a instalação e sucesso de Eburobrittium contribuíram decisivamente a proximidade das águas da lagoa de Óbidos – que se pensa, na época, chegariam bem perto do local – e de áreas de floresta que permitiam abastecer a população com produtos alimentares, bem como os solos ricos em minerais, as águas sulfurosas para banhos e as águas potáveis.

Era, em suma, uma cidade importante, na escala das urbes do Império Romano. Prova disso é a sua área global e a significativa dimensão do Forum e das Termas.

Os trabalhos de escavação, realizados em diversas campanhas anuais realizadas desde 1994, sob a direcção do Mestre arqueólogo Dr. Jóse Beleza Moreira, permitiram definir uma área de estudo com cerca de seis mil metros quadrados, na qual foram identificadas, uma parte do fórum, as termas e mais 10 estruturas romanas, além de 3 outras estruturas medievais/modernas, relativas a uma posterior ocupação humana do local.




Do edifício termal, apenas se encontra escavada a zona quente (lacónico, sala das banheiras, sala de descanso), um praefurnium e um corredor de serviço. O lacónico tem uma piscina circular com 3,4 metro de diâmetro, apresentando dois degraus, com 30 cm de largura.

Recorrendo a Vitrúvio considera-se que as Termas de Eburobrittium tem um comprimento idêntico ao Fórum, apesar de só se encontrar escavadas um a pequena parte da estrutura, a zona de banhos quentes, devido ao problema da localização da auto-estrada (A8).

Actualmente é possível observar as canalizações, o Caldarium, salas com banheiras quentes e o respectivo Praefurnium.

A estrutura mais interessante corresponde ao Laconium, uma piscina circular de 3,40m de diâmetro interno, bem preservada, seria revestida em blocos de calcário, pelo que devia representar um elemento de grande beleza. A construção do Laconium pensa-se mais tardia, uma reconstrução ou reaproveitamento postrior desta área das termas.


Entre o fórum e as termas existe a cloaca da cidade romana de Eburobrittium, construída com fundo de tijoleira em toda a sua largura conhecida, esta rede de esgotos principal apresenta um sistema de construção de excelente qualidade.

Actualmente está visível um troço de 30 metros de cumprimento, ainda não se sabendo o seu inicio dado que se prolonga para uma área ocupada pelo ramal de acesso da auto-estrada (A8).



No sentido transversal ao descrito está esta construção, legendada de "mina de água" numa foto que acompanha o texto transcrito, mas não consegui perceber se é um original romano ou posterior.

Num placard à entrada do recinto, podemos ler este texto:

No séc XIV ou XV esta área foi reocupada, com a construção do conjunto correspondente à Quinta das Flores. Seria definitivamente abandonada entre o séc XVIII e o séc. XIX, encontrando-se já em ruínas no terceiro quartel do séc. XIX.


Prova da persistente ocupação do local, temos este texto retirado do site O Novo Aquilégio:

Caldas da Quinta das Flores é a denominação dada no Aquilégio (1726: 17), com o seguinte texto: “Em pouca distancia das Caldas do numero antecedente [Quinta dos Freires, Gaeiras], há outras junto da quinta chamada das Flores, que é do Hospital Real das Caldas, onde brotam dois olhos de água do mesmo minerais, e qualidade, que a das outras, e sem embargo de que tem um tanque, em que tomavam banhos, hoje usa-se pouco destas caldas, porque quem há mister este remédio, ou vai aos banhos das Caldas da Rainha, ou os toma na quinta dos Freires, em que estão os tanques cobertos, e se tomam com melhor comodidade. Nas terras por onde correm as águas de todas estas Caldas, se acha um lodo viscoso, e negro, que é bom para as inchações de juntas, e de partes nervosas, aplicando-se quente.” 

Tavares (1810: 150) menciona o Vale de Flores: “Em distância de quase uma milha da Quinta das Gaeiras, para O. S. O., e S. O. das Caldas da Rainha é a Quinta de Vale de Flores, anexa antigamente ao Hospital, ao qual ainda hoje paga foro. A casa que ainda existe, tem na arquitectura de suas portas e janelas o testemunho da sua antiguidade. Em alguma distância dela para O.S.O. há uma copiosa nascente de água sulfúrea em tudo a mesma com as águas da Vila. Existem ainda ali restos ruinosos de um grande tanque, do qual não é possível fazer uso algum, e a água em copiosas nascentes se espalha por um paul que lhe fica imediato. O seu calor no tanque é de 84ºF ou 23 de R. talvez por estar sempre descoberta ao ar livre.”
Se a descrição dada no Aquilégio coincide com o local desta nascente, que se encontra a menos de 500 m em linha recta da Caldas da Gaeiras, o mesmo não se poderá dizer da descrição de Tavares, que parece mais referir-se à nascente das Águas Santas.

Quanto ao tanque de banhos descrito, não existe qualquer testemunho, mas no entanto deverá ser esta mesma nascente que alimentava as vizinhas termas romanas da cidade romana Eburobrittium.


Atualmente, Eburobrittium aguarda o desvio da autoestrada para o prosseguimento da escavação.


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Cidade romana de Collippo

Vou iniciar uma rubrica chamada Correio dos Leitores, onde exponho uma criteriosa seleção das centenas de missivas que recebo diariamente no meu correio.

"Eng., sabe qual é o paradeiro da antiga cidade de Collippo? É que já dei cabo das costas a tentar encontrá-la e até agora só descobri um tomo da Enciclopédia Luso-Brasileira, que, por muito lúdico que seja, deduzo não estar relacionado com a imponente povoação romana."

A resposta a esta pergunta não é óbvia, e exige uma leitura atenta do artigo "Collipo: análise dos espaços públicos", de João Pedro Bernardes, e presente no livro "Cidade e foro na Lusitânia Romana".

Na descrição pliniana dos oppida da faixa litoral portuguesa aparece Collippo, como um povoado túrdulo, a sul de Conimbriga. O radical –ippo do topónimo latino parece confirmar este povoado como um dos turdulorum oppida fora da sua área natural (villar, 1999) e que poderá ter as suas origens aquando da migração de populações provocada pela pressão cartaginesa sobre o litoral da Andaluzia, sobretudo a partir de meados do século III a.C. após a derrota na primeira guerra púnica. Situada entre as cidades de Conimbriga e Eburobrittium, na faixa central atlântica portuguesa, o antigo povoado túrdulo passará no período imperial romano a capital de civitas, conforme é demonstrado por várias inscrições (CIL II, 339, 340, 353; CIL IIs, 5232; CIL VI, 16100; Bernardes, 2007, nº 26, 27). Ficava localizada numa colina entre os actuais concelhos de Leiria e Batalha, no sítio de S. Sebastião do Freixo, onde têm sido recolhidos desde o século XIX variados elementos que atestam ter sido ali que teve assento a cidade, de acordo com a tradição e as ruínas ainda visíveis no século XIX (Leal, 1874, p. 70).
(...)
No século XII o espaço já é conhecido por Palácio de Randulfo, tendo-se perdido definitivamente o nome Collippo, apesar da tradição dos séculos seguintes se referirem às ruínas então aí visíveis como os vestígios de uma cidade antiga que teve ali assento. Todavia, o antropónimo Randulfo, de conotação germânica, não deixa dúvidas quanto ao facto do sítio ter tido uma continuidade de ocupação ainda que pouco significativa ao ponto de ter perdido qualquer estatuto de centralidade.
(...)
Todavia, ainda no século XIX, Pinho Leal (1874, p. 70) dá conta no local de alicerces antigos e, em 1909, Tavares Proença Júnior, ao referir-se nos seus manuscritos, guardados no museu de Castelo Branco, a uma inscrição funerária que teria comprado, acrescenta que teria aparecido ao retirarem pedra das ruínas das edificações do oppidum. Como facilmente se depreende, há cerca de cem anos ainda eram visíveis os alicerces de muitos edifícios romanos que continuavam a ser delapidados. A intensificação dos trabalhos agrícolas a par da progressiva introdução de meios mecânicos, passarão, a partir de agora, a arrancar e arrasar as ruínas soterradas. A expressão de um velho dos anos setenta, natural da povoação vizinha dos Andreus, que dizia na sua juventude haver ali “uma estrumeira de cantarias”, referindo-se aos campos em redor de S. Sebastião (Santos, 1971), é assaz elucidativa. De acordo com informações obtidas, era frequente, há cerca de cinquenta anos, ver amontoados de tijolos e cantarias retirados dos campos após as lavras. Muitos desses entulhos chegaram mesmo a ser levados pelo exército que vinha para aqui fazer tiro de artilharia. A área correspondente ao forum e termas, estava, já por essa altura, extremamente destruída, conforme viria a ser confirmado pelas consecutivas campanhas de escavações ali realizadas nos anos 60 e em 1975. Até meados do século, porém, os níveis de destruição do ponto mais alto da colina e dos terrenos que daqui se estendiam até à Quinta, ainda eram relativos. A ocupação desta área por um denso carvalhal deveria ter conservado muitas das ruínas soterradas. A venda da quinta de S. Sebastião aos ascendentes dos actuais proprietários irá, contudo, ditar a destruição desta zona de ruínas. O carvalhal é substituído por um eucaliptal, devendo o arranque do bosque de carvalhos e consequente arroteamento para o plantio de eucaliptos ter provocado destruições significativas. De igual modo, a exploração de saibros e areias na parte mais alta do monte arrasou por completo as estruturas ainda ali existentes, tendo este morro, de acordo com informações recolhidas, sido rebaixado cerca de 2 / 3 metros. Já nos anos sessenta, o arranque de parte dos eucaliptos e o plantio de vinha viria a destruir mais estruturas, tendo havido necessidade de recorrer a tiros de pólvora para rebentar com alguns elementos mais pesados (Brandão, 1972, p. 57). Os anos setenta e inícios de oitenta acabariam por ver a destruição do pouco que ainda existia. Na vertente norte daquele morro, o rompimento da terra em profundidade por meio de uma bulldozer para plantio de vinha teria destruído os poucos muros ainda existentes, tal como os postos a descoberto nas escavações ali efectuadas, e, eventualmente, o que restaria das termas. Do lado sul do morro, entre este e a quinta, o trabalhar de uma bulldozer durante um mês revolveu as terras até ao solo virgem tendo destruído, segundo nos informaram, grandes quantidades de muros soterrados. Perante tanta acção destruidora não é difícil compreender que mesmo uma velha cidade de pedra possa desaparecer quase por completo!

E assim está explicado o paradeiro de Collipo. Escusamo-nos, portanto, a gastar gasolina nesta viagem.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Roteiro romano de Conímbriga (não passando por Conímbriga)

No post de hoje não há lugar para clichés e por isso vamos fazer um percurso pela romanização de Conímbriga e evitar por tudo entrar nesse famoso destino turístico. Começamos pelo Castellum de Alcabideque, situado na pacata aldeia de... Alcabideque.


Alcabideque é um nome arabizado em que o reconhecível prefixo al- obscurece uma raiz latina - caput aquae - significando, literalmente, "mãe-d'água". Identificando, por conseguinte, a nascente de água ali existente, este topónimo regista a circunstância que tornou Alcabideque num local tão importante em tempos romanos e pela qual é conhecido ainda, nos dias de hoje. [1]



Construído no séc. I d. C., o aqueduto ter-se-á inserido no projecto de urbanização desenvolvido na época de Augusto, tendo funcionado, já em plena época de Cláudio, como esgoto, que terá antecedido a construção de duas cisternas. [2]



Situado em zona agrícola, a água era captada por uma represa e respectiva torre - denominado castellum - de planta rectangular. De câmara inferior com abóbada de canhão, o extradorso apresenta-se em arco abatido de características tipicamente romanas.


Depois de desenvolvido sobre um paredão, o aqueduto retomava o seu andamento subterrâneo, finalizando por desembocar nas termas localizadas a Sul das ruínas de Conímbriga.


Há 50 anos, antes de ser escavado e vedado, era assim o interior do Castellum (desprovido da ligação original à água):

[3]


Vamos continuar o nosso roteiro romano de Conímbriga não por Conímbriga mas sim por Condeixa-a-Velha, onde debaixo desta pacata rua:


Se esconde um dos mais imponentes edifícios romanos em Portugal - o anfiteatro de Conímbriga:


[4]

Foi indentificado somente em 1971 [5] (apesar de três das suas entradas estarem parcialmente acima do nível do solo) e vai ser escavado e integrado no circuito museológico de Conímbriga (e ser o ex-libris) nos próximos anos. [6]




O telemóvel não perdoou o avançar da tarde, por isso foi a reportagem possível. Melhor é se eu deixar a foto que meti no Facebook há uns tempos e mereceu o like do Dr. Guilherme Cardoso, um dos maiores especialistas em romanos neste país.


E acabamos na Quinta de São Tomé (onde está um museu dedicado a tudo isto e muito mais), não porque tenhamos intenção de a visitar, mas sim para fazer a ligação com o próximo post, dedicado ao roteiro quinhentista de Condeixa-a-Nova, e desta vez passando mesmo por Condeixa-a-Nova.



Fonte 1, 2, 3, 4, 5, 6