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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

As minhas aventuras na Eslovénia


É difícil escrever um post sobre a Eslovénia quando me falta material sobre o principal ponto de interesse do país, as eslovenas. Mas também devemos refletir sobre o que nos atrai nas eslovenas: se a beleza natural ou a possível badalhoquice. Ambos, dirão. Terão sido também esses os motivos que convenceram Donald Trump. Por isso eu sugiro deixar umas fotos da ilustre personalidade eslovena que será a próxima primeira dama dos Estados Unidos e depois irmos às coisas sem interesse nenhum.

 [fonte]

Liubliana


Esta igreja ortodoxa foi construída no século XX, mas tem muito mais em comum com os primitivos templos cristãos do que as nossas igrejas habituais, baseadas nas basílicas romanas.


Uma das características que se perderam nos templos católicos foi a iconóstase, que separa o espaço sagrado do profano. Penso que em Portugal o único exemplo primitivo ainda existente seja na Igreja de São Giáo, na Nazaré (século VII).


Antes da globalização tornar disponíveis em toda a parte os modelos dos principais construtores, cada região tinha automóveis diferentes localmente produzidos. O Zastava era produzido na Sérvia com base num Fiat e tinha componentes elétricos feitos na Eslovénia.


Se podemos não só gramaticalmente mas também moralmente dizer que os castelos portugueses sofreram restauros, já não devemos aplicar esse verbo aos eslovenos, cujos restauros foram mais minuciosos e menos dramáticos, apresentando monumentos mais autênticos, que não têm medo de mostrar as suas mutações. Por exemplo o antigo salão de estado:


Esta prisão do século XIX foi preservada por ser o que ela é, e já não é pouco (por analogia temos prisões portuguesas em fortificações que à falta de consenso político não têm hipótese de ser musealisadas).


As ruínas da primitiva torre foram também expostas (se em Portugal não escavam nem ao pavimento original, aqui foram por aí abaixo e a torre está segura por estacas):


Um bocado de muro (estava lá sem ofender ninguém, mantiveram-no mesmo que descontextualizado, e sem avarias de o reintegrar):


A igreja:


Normalmente eu ia agora procurar fotos antigas e pô-las aqui no blog lado a lado com as novas para contextualizar a evolução do espaço, mas essas comparações estão já expostas no castelo de Liubliana, sinal de que estamos perante uma civilização superior.


Škofja Loka

Esta ponte do século XIV é a mais antiga da Eslovénia:


Tem uns prédios jeitosos que apresentam características de diferentes períodos:




Numa igreja encontrámos esta Nossa Senhora trazida de Fátima em 2008:


Também tem um castelo:


Apanhámos a sua igreja enquanto os seus altares estavam a ser restaurados. As pinturas murais já tinham sido e foram integradas de forma vanguardista...


Em vez de deixarem apenas a sua cantaria à vista embutida na parede, esta porta medieval foi reaberta, voltando assim a ter o uso para que foi construída (hoje meramente elucidativo, visto que as divisões do castelo estão dispostas de forma diferente).



Este pavimento elevado faria mais sentido se houvesse mosaico romano por baixo, mas era só brita:


A visualização destas ruínas através dos degraus de uma escada já pareceu mais interessante:



Estão dispostos vários artigos feitos em rendas de bilros:



Predjama

Tem um castelo embutido na rocha, que apresenta uma simbiose interessante entre construção humana e adaptação ao meio natural:





A ocupação humana estendia-se pela gruta adentro:



Como a seguir a isto não posso meter uma porcaria qualquer, no próximo post Salamanca.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Trancoso, distrito da Guarda

Já faz um mês desde que fomos visitar as aldeias históricas. A última paragem foi Trancoso:



Uma nota muito positiva para esta passagem acanhada, acompanhada in situ por uma nota explicativa.


Datado, provavelmente, de Época Moderna (sécs. XV-XVI), o Boeirinho é o único postigo existente na fortificação de Trancoso. Trata-se de uma pequena e estreita abertura de arco pleno, pela qual passa somente uma pessoa de cada vez, possibilitando, deste modo, a entrada controlada de pessoas na vila sempre que as portas da cerca estavam fechadas. Ainda em 1732, ao toque do sino então localizado na Casa da Câmara, as portas da vila eram encerradas e vigiadas por guardas, sendo por este postigo que entravam, depois de Identificados, os que se encontravam fora de muros. Este tipo de vigilância era possível porque, na altura e até meados do séc. XIX, Trancoso permanecia ainda confinado ao Interior das muralhas medievais. Em 1916, a Câmara propôs ao Ministério da Justiça a demolição deste singular postigo, ao que se opuseram alguns populares. Esta é a última notícia de um longo período, Iniciado nos meados do séc. XIX, em que se operaram grandes transformações no urbanismo da vila. Decorrentes da devastação causada pela invasão Francesa (1810), dos intentos de modernização da vila e da incúria de muitos dos seus habitantes, estas alterações traduziram-se também no desmantelamento de parte do sistema defensivo. Procedeu-se, então, à abertura de vários rasgos nas muralhas para melhorar as acessibilidades, como é o caso das Portas Novas, abertas em 1843 para facilitar o acesso às Sortes situadas no Campo, e da abertura existente no Boqueirão, para que as crianças chegassem mais depressa à escola. Também para melhorar os acessos, em 1902, a Porta de S. João e respectiva torre foram demolidas com toda a popa e circunstância, na presença da Vereação da Câmara e de diversas autoridades. Parte da muralha e as sete torres hoje inexistentes foram também demolidas neste período, para utilização da pedra em construções públicas e privadas. 

Duas coisas que a Lídia não gosta: percorrer muralhas, porque tem vertigens, e andar em cima de certos pavimentos que considera poderem vir a cair.  Fizemos o pleno:


É aliás requisito para qualquer aldeia que se intitule de histórica oferecer a possibilidade de trambolhão e queda aparatosa.

Agora vem a parte do post em que me julgo arquivista da Direção Geral do Património e me ponho a organizar a secção de fotografia. Estas duas fotografias ilustram o castelo antes e depois da intervenção da DGEMN:



Não parece das mais drásticas, mas há vários aspetos a considerar. Para já, porquê subir três fiadas de pedra à muralha? Tinha lá as ameias no sítio e tudo... Seriam as ameias uma reconstrução anterior?

Do lado esquerdo aparece a capela-mor da desaparecida Capela de Santa Bárbara, que sofreu um restauro hesitante:



Depois desta fase, foi decidido que havia pedra a mais e foram tiradas as superiores, como se pode ver pela vista geral e por esta atual, tirada por mim (agora estou somente preocupado em meter fotos que ilustrem a evolução do espaço, no entanto quando estou a passear, e porque não conheço de antemão os arquivos da DGEMN, apenas estou a pensar em tirar boas fotografias, razão pela qual agora me remeto quase em exclusivo à DGEMN, tirando quando apanho perspetivas mais bonitas como a da próxima foto).


Qual o critério para a reconstrução da ruína? Que não sobrassem dúvidas aos visitantes que não havia nada de artificial nesta ruína? Que seguia as leis da gravidade e a erosão dos séculos e numa ruína naturalmente perfeita não há lugar para paredes intactas a partir de certa cota? Será que a criação de ruínas é uma ciência exata que tem de ser respeitada pedra por pedra?

O vasto terreiro, hoje vazio, devia conter edificações que a documentação medieval menciona. Sobre a utilização moderna deste castelo, sabemos que a principal tentativa de lhe dar nova função ocorreu nos finais do século XVIII, culminando em 1796 na construção de um depósito de munições [...] na antiga alcáçova, que felizmente nunca chegou a funcionar, vindo a ser demolido (Gomes, 1996) [fonte]


No entanto a DGEMN achou que por ser um castelo não havia lugar para este edifício mas sim para uma torre:


Para começar, mais três fiadas de pedra:


Depois, mandar abaixo e fazer outra vez, mas agora com aparência medieval:




Para quê se levantarem paredes de novo e deixarem os topos por rematar? Não sou só eu com estas dúvidas, como podemos ver pela evolução da obra vista do lado de dentro:




Num primeiro momento, pareceu-se bem fechar a torre até ao caminho que percorre a muralha.


Mas depois não, houve a necessidade veemente de subir a altura da parede. Que se passou, sobrou pedra?

[...] a notável Torre Moçárabe do castelo de Trancoso, testemunho único em Portugal [...] que se conservou ao longo dos anos, tendo sido mais tarde incorporada dentro do perímetro do castelo românico, do séc. XII-XIII, onde passou a desempenhar as funções de Torre de Menagem. No entanto, trata-se de uma construção muito anterior ao séc. XII, como bem denuncia o seu perfil tronco-cónico, a sua porta em arco ultrapassado e o seu aparelho de construção [...] tudo pormenores que nos remetem para a técnica de construção pré-românica. De resto, no séc. X o castelo ainda ignorava a Torre de Menagem. (Barroca, 2000)  [fonte]


Esta torre sobreviveu à intervenção de 1942, mas por algum motivo em 1968 achou-se por bem desmontá-la e montá-la de novo:


Mas ainda não tinha chegado a esta torre a verdadeira intervenção, justificada assim:

Era possível percorrer o adarve, comtemplar a paisagem e mesmo deambular pelo recinto, mas conhecer o interior da Torre de Menagem, por exemplo, era uma experiência impossível devido à altura a que se encontra a porta de entrada. Ficava-se então apenas pela contemplação do seu exterior.  

Coitado do arquiteto, tem de construir uma escada para dar acesso à torre. De certeza, que com a humildade típica dos arquitetos, e de Gonçalo Byrne em particular, a estrutura a construir será o mais subtil possível, apenas focada na sua necessidade enquanto acesso:


Esta é a grande mais valia deste projeto, conseguir implementar sobre uma pré- existência repleta de história e memória, uma estrutura contemporânea composta por oito corpos arquitectónicos, que passa quase despercebida e se confunde com toda a atmosfera primitiva. Inclusivamente os corpos mais relevantes e imponentes conseguiram manter essa linguagem, sóbria e quase transparente, por mérito do arquiteto que conseguiu conciliar a implantação dos novos corpos, a sua fisionomia e materialidade com a estrutura pré-existente. [fonte]

Falta ainda apresentar a cereja no topo do bolo: o "miradouro virtual" na torre de menagem, a razão de existir de toda a estrutura que foi construída dentro da velha torre.


À chegada, somos informados que este supra-sumo do restauro no século XXI avariou pouco depois da inauguração. Provavelmente, as verbas disponíveis para esta obra não incluiam a manutenção dos equipamentos. Consola-nos saber que apesar da parvoíce caducar, o castelo remanesce.