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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Mosteiro de Alcobaça


Tenho visitado ultimamente vários sítios (Mosteiro de Cós, Tentúgal) sem ter reportado aqui no blog. Parece-me que mais vale escrever pouco e bem do que meter fotos sem as contextualizar. Por isso, quis explorar com detalhe algumas características relevantes de diferentes espaços do mosteiro e aproveitar a abundância de fontes que não existe para as ruínas que normalmente visito.

Fachada



Esta imagem realizada durante a Terceira Missão Estética de Férias nos meses de Agosto e Setembro de 1939, era a proposta de “reintegração” da fachada no seu antigo modelo gótico, destruindo a actual fachada barroca, tal como era apanágio na época. 

Panteão

Nos mosteiros medievais, e ao contrário do que acontece na maioria das casas que nos chegaram até hoje, não se acedia ao mosteiro pelo portal principal, mas antes por um pequeno portal coberto na Galilé. Na imagem seguinte, da abadia francesa de Claraval podemos observar a galilé com o seu portal:


A Galilé era o local de sepulto dos reis e nobres, sendo que em Alcobaça aqui permaneceram até que o elevado estado de degradação da mesma, obrigou a que os túmulos fossem recolhidos para o interior do templo. Entre 1782 e 1786, estes restos mortais acabaram por ser definitivamente transportados para o Panteão, construído sob risco de Guilherme Elsden por volta de 1770. Este panteão, adossado ao transepto Sul, seguiu um estilo neo-gótico, que apenas alguém com a sensibilidade do inglês podia executar à época. 

Alex Sousa Bernardo, em Um Palácio para um Abade


Achei engraçado o túmulo da Rainha D. Beatriz:


Capela-mor

A partir de finais do século XVI, na sequência das determinações do Concílio de Trento, aumenta o número de retábulos, capelas e altares, na igreja do Mosteiro de Alcobaça. Multiplica-se também a talha dourada, bem como as imponentes esculturas de madeira e de barro cozido policromado e dourado. O retábulo da capela-mor ergue-se como o resultado de uma combinação artística entre vários materiais, compostos em diferentes séculos: a estrutura pétrea, erguida no século XVI; o conjunto de esculturas de barro cozido e policromado, adicionado no século XVII; o Sacrário, com o seu imenso resplendor, colocado no século XVIII. A relação entre os vários elementos artísticos do retábulo transformara a capela-mor num conjunto marcado pela magnificência e originalidade. 

Ainda acerca deste espaço da igreja, já no século XX, sublinha, similarmente, Vergílio Correia que “A obra do século XVI, acrescentada e povoada de estátuas no século XVII e enriquecida no século XVIII com o globo ostentoso e radiante, era a mais notável das composições barôcas, em barôco, de todas as fases, que existia no ocidente peninsular!”

As obras executadas na antiga igreja monástica, nas décadas de 1930 e 1940, pautaram-se pelas práticas de restauro filiadas na reposição do purismo arquitectónico e na reintegração estilística dos monumentos. Apesar das novas orientações europeias, que anunciavam o fim da era dos monumentos nacionais e o início da conservação integrada, vigorava, no país, uma continuidade na linha de actuação oitocentista, no âmbito do restauro do património histórico edificado. Por conseguinte, na igreja do Mosteiro de Alcobaça, foi desmontado o espólio artístico e iconográfico referente aos séculos XVI, XVII e XVIII. Valorizou-se o despojamento ornamental, característico da primitividade do edifício. As “obras de reintegração” e, mais concretamente, a desmontagem do retábulo da capela-mor não foram consensuais, suscitando profundas críticas no tempo em que decorreram.  


Ana Margarida Martinho, em Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça - Contributos para a história do restauroda Igreja e da Sacristia Nova (1850–1960)




 

Onde se erguia um altar em talha dourada foi há pouco tempo colocada a imagem que coroava o altar mor barroco, assistida por uma mesa com velas, prova da tensão entre o restauro arqutetónico e o culto às imagens apeadas.


Dormitório

Sobre o dormitório do século XIII foi construído um segundo piso, demolido pela DGEMN. Além das razões estéticas, é possível que esta demolição tenha ocorrido para diminuir a carga sobre os pisos inferiores. Para expor os elementos medievais seria necessário demolir paredes e desimpedir os pilares, fragilizando a estrutura.



Actualmente acede-se ao Dormitório por uma escada reconstruída durante as obras de reintegração de 1930-40; duas filas de colunas com base octogonal e capitel com motivos vegetalistas dividem-no em três naves. De início, o Dormitório era comum, e só o Abade tinha as suas instalações no lado Sul junto à parede do transepto. A partir do séc. XVI começou a ser dividido; as naves laterais foram transformadas em salas e a nave central a funcionar como corredor.













Refeitório

 As obras no Refeitório passaram pela demolição do Teatro no Refeitório, rebaixamento do piso, aplicação de lajeado, conservação de vãos e do telhado, rebaixamento do cano de água, a demolição do banco de alvenaria e intervenção na fachada exterior.

Júlio Fernando David Antunes, em Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça - Análise das intervenções efectuadas nos últimos 50 anos, diagnóstico das anomalias actuais e proposta de intervenção futura





Cozinha

Os pilares que sustentam a chaminé são a primeira utilização do ferro na construção civil em Portugal. [fonte]


Também é interessante a adaptação das primitivas saídas de água às torneiras.


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Convento de Jesus, Aveiro


O percurso monumental pelo antigo Convento de Jesus mostra os espaços conventuais que sobreviveram até aos nossos dias. São, na sua maior parte, espaços sagrados, uma vez que as áreas privadas desapareceram devido às sucessivas obras de adaptação deste edifício a colégio e, posteriormente, a museu. Desapareceram as celas, a enfermaria, a botica, as oficinas e os celeiros. Sobrevivem ainda alguns vestígios das cozinhas na área da actual cafetaria. [nota do museu]



Sobre este espaço conventual escreve o próprio Dr. Alberto Souto [diretor do museu a partir de 1925], sendo notório o entendimento que tem sobre o seu escasso valor técnico e histórico: «[...] Ao mesmo tempo, o edificio do antigo convento de Jesus na sua parte historica e monumental e na parte que serviu a colegio, de pessima construção, desconexo e labirintico, retalhado nos seus baixos e em parte ocupado pelas escolas primarias e pelos armazens, oficinas e arrecadações municipais, e abandonado às inclemencias dos tempos, apresentava aspectos aterradores [...] A parte monumental, o precioso côro de baixo com o seu revestimento de marmores, o claustro simples e gracioso, estavam abismados em cubiculos sem ar, sem luz, sem segurança e sem aspecto. Era preciso [...] melhorar o que era digno de ser admirado [...]»A realização de obras no espaço conventual serão orientadas numa perspectiva de dotar o Museu de novas salas de exposição, não existindo preocupação clara na preservação da história e do ambiente religiosos. 
O entendimento da época sobre as intervenções de restauro não poderá ser dissociado de um movimento fortemente anti-clericalista, que encontramos em muitos homens da I República, em especial quando essas intervenções se efectivam em espaço religioso. Sobre este ideário que se relaciona intimamente com a noção de intervenção em Monumentos Nacionais, escreve Alberto Souto, em 1908, sobre a urgência da República:
«[...] Fazer a República não é derrubar um trono; é mais – acabar com o regime em que temos vivido e que tem arruinado o país, é acabar com todos os restos do passado [...] é promover a prosperidade, é realizar as grandes reformas sociais, é varrer tudo, renovar tudo, purificar tudo [...]».

A capelinha que estava ao lado do côro do tumulo, com entrada pelo arco que dá para o claustro, tambem foi demolida. Assim, alarga-se a entrada para o [...] claustro e dá-se alguma luz a mais ao tumulo cuja sala é muito sombria, humida e mal ventilada.»
O dr. Lourenço Peixinho, presidente da Camara, ofereceu o mozaico para o chão, que ele mesmo escolheu e encomendou em Lisboa. [...]». 

Não será, pois a unificação estilística a grande preocupação do Dr. Alberto Souto, pois é notório que, muitas vezes, para além de pequenas reparações quotidianas, procura "completar" o que se encontra em falta – ou que nunca chegou a ser construído – segundo modelos que, no seu entendimento, melhor se adaptem a cada local, estilo ou função.

Estaremos, assim, bem mais próximos das noções veículadas por Luca Beltrami na sua definição de Restauro Storico. Uma das mais importantes vertentes, e que por diversas vezes poderemos constatar na acção do Dr. Alberto Souto, é a do "projecto-cópia" ou seja a preferência pela recriação arquitectónica do edifício «[...] como ele deveria ser – sem porém nunca o ter sido [...]».

Do Convento nascerá o novo Museu, dotado de instalações à altura de um Museu Nacional com grandes salas de exposição, sendo o claustro, já não o que resta de uma remota vida religiosa, mas um agradável percurso museológico para os visitantes.
Para além do espaço, o Director remodela a ambiência, retirando-lhe alguma da austeridade, pretendendo que se tome uma parte integrante do Museu, chegando, inclusivamente a expor aí algumas peças de estatuária monumental. 

Nesta sua actuação é particularmente curiosa a "apropriação" que faz pela decoração: «[...]Mandei pintar as janelas-portas que dão para este claustro (parte superior) [...] era desolador. Mandei comprar vazos, pedi palmeiras e vasos com sardinheiras à Camara, que m' as mandou logo, bambús etc. e comprei cache-pots [n]as fabricas de faianças de Aveiro. O claustro parece outro. Já pela festa assim estava com vasos e flores e palmeiras e fetos e toda a gente gostou de vêr esta nota de animação e vida que as flores dão no silencio do convento [...]». [fonte]


Atualmente o aspeto do museu é muito mais sóbrio, havendo a preocupação de mostrar uma expsoição coesa (dedicada sobretudo à pintura barroca) do que um amontoado de peças sem ligação entre elas, como nos primeiros tempos:




Hoje em dia ainda há alguns vestígios desse tempo, como a sala onde antigamente as freiras lavavam as mãos antes das refeições:


Muitos dos espaço pertencentes ao antigo convento que sobreviveram estão ricamente decorados em barroco:





Mas o mais impressionante é a igreja:


Foi neste convento que viveu Santa Joana, e onde está sepultada numa urna no coro-baixo:


Existem muitas representações suas no museu, normalmente a pegar num crucifixo:


O presumível crucifixo original está exposto no museu:


Numa nota podemos ler que "segundo a tradição, este pequeno "crucifixo gótico" terá pertencido à Princesa Santa Joana, que o segurava na hora da sua morte". José Hermano Saraiva elaborou um pouco mais o assunto para chegar à conclusão inequívoca que era este o crucifixo de Santa Joana.

Já o diretor do museu, José António Christo, acrescenta que o crucifixo tem "um cabeleira feita com cabelo da Princesa Santa Joana", ao que a entrevistadora, Paula Moura Pinheiro acrescenta "assim rezam as crónicas", respondendo o diretor a rir "assim rezam as crónicas".

Não interessa ao diretor atual do museu se realmente é estritamente rigoroso ou não o que a tradição deixou no Mosteiro de Jesus, independentemente de ser um alegado crucifixo e uma alegada cabeleira ou de esta alegada porta manuelina, construída em 1925 pelo seu antecessor Alberto Souto:


Depois da devoção cega a Santa Joana, e depois do anti-clericalitismo de Alberto Souto, hoje o Museu de Aveiro está aberto a todas as interpretações, abstendo-se de apresentar a sua doutrina oficial. Nele podemos ver o crucifixo de Schrödinger: ao mesmo tempo é e não é o de Santa Joana. Não importa - vale como crucifico gótico. Só por isso já merece figurar no museu.

domingo, 27 de março de 2016

Dólmen da Capela de Nossa Senhora do Monte

O nome é bastante esclarecedor - trata-se de um monumento funerário com cerca de 5000 anos sobre o qual na idade média (possivelmente no século XV) foi construída uma capela.





À sua preservação ajudou o dólmen ter estado enterrado até à sua escavação arqueológica, nos início dos anos 90.


Perto fica outro dólmen, o do Carvalhal.