E é isto o que tenho a dizer sobre o Convento de Cristo, mãe, Madi e Lídia. Mesmo sem computador continuo a publicar aqui. Que menino vocês arranjaram.
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
Convento de Cristo, Tomar
O Convento de Cristo em Tomar é o monumento português mais imponente que visitei nos últimos tempos. Todos o conhecemos pela janela do capítulo, mas os seus muitos claustros e corredores são também muito ricos artisticamente. Como a internet está cheia dessas coisas, fiquemos pelas imperfeições causadas pela sobreposição de volumes e estilos durante os oito séculos de história do edifício.


Nos conventos portugueses, após a expropriação de 1834, houve muitas demolições com vista sobretudo à reutilização do material de construção. No entanto neste houve uma que serviu para enaltecer um atributo do próprio convento, visto que em 1843 o piso superior do Claustro Pequeno foi demolido para desobstruir a janela manuelina, e foi assim um contributo importante para que a janela se tornasse na referência da arquitetura portuguesa que hoje é.
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Tancos, Vila Nova da Barquinha
Tancos teve, do século XVI ao XIX, um movimentado porto no Rio Tejo. No entanto, hoje é uma pacata vila cuja parte mais antiga, contrariamente à das outras terras que ou foi suplantada pelas edificações mais recentes ou demolida para aproveitar o material de construção, foi convertida em terrenos de cultivo, conservando as paredes exteriores.
Presumo que depois de um período de abandono, possivelmente devido às cheias, a população, entretanto deslocada para cima, quis voltar a aproveitar uma zona que é muito bem situada, devido ficar junto do cais, que é o maior ponto de interesse na terra. Da maioria das casas só existe o rés-do-chão, mas é provável que tenham tido 1º. andar.
Etiquetas:
Ruínas
Local:
Tancos, Portugal
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Tomar
O casario de Tomar merece a nossa atenção em virtude das suas cantarias trabalhadas:
O edifício dos Estaus foi mandado edificar pelo Infante D. Henrique no primeiro quartel do século XV na então rua principal de Tomar, estando a sua fundação directamente relacionada com a feira franca local. O objectivo destas "(...) edificações henriquinas era de proporcionar poiso aos feirantes que acorriam e a outros forasteiros, e ainda à criadagem dos Mestres da Ordem de Cristo e dos seus freires (...)" (FRANÇA, 1994, p. 92).
Palmadinhas nas costas devem ser dadas nos dirigentes camarários, que resolveram cobrir as janelas emparedadas com fotografias antigas da cidade:
Mais relevância tem o que resta do Palácio dos Estaus, que é o único vestígio de uma estalagem medieval no país.
O edifício dos Estaus foi mandado edificar pelo Infante D. Henrique no primeiro quartel do século XV na então rua principal de Tomar, estando a sua fundação directamente relacionada com a feira franca local. O objectivo destas "(...) edificações henriquinas era de proporcionar poiso aos feirantes que acorriam e a outros forasteiros, e ainda à criadagem dos Mestres da Ordem de Cristo e dos seus freires (...)" (FRANÇA, 1994, p. 92).
Sendo inicialmente administrados pela Ordem de Cristo, os Estaus passaram a ser arrendados no início do século XVI, sendo explorados pelos foreiros para habitação e comércio, e passando posteriormente para a alçada da Misericórdia (Idem, ibidem). Em meados do século XIX alguns dos seus alpendres eram ainda utilizados por ferradores, mas com o passar dos anos o que restava da hospedaria foi integrado na malha urbana da cidade. 2
Desta hospedaria medieval, que originalmente possuía dois corpos com arcadas que formava uma espécie de loggia , restam apenas alguns elementos estruturais, como os arcos ogivais de um dos edifícios dos Estaus que actualmente se encontram embebidos na caixa murário de um prédio.
Desta hospedaria medieval, que originalmente possuía dois corpos com arcadas que formava uma espécie de loggia , restam apenas alguns elementos estruturais, como os arcos ogivais de um dos edifícios dos Estaus que actualmente se encontram embebidos na caixa murário de um prédio.
Outros dois arcos quebrados, pertencentes ao segundo corpo do edifício, elevam-se isolados num jardim fronteiro.
Em 1954 estes últimos arcos encontravam-se integrados em outras habitações, que foram demolidas em 1968, sendo os arcos reconstruídos (de um só restava o arranque).
E uma análise do traçado urbano deste bicho?
Tendo em conta que os vestígios apresentados se localizam no canto superior direito da imagem, separados pela Rua dos Arcos, podemos deduzir que os dois quarteirões separados por esta rua até à Travessa dos Arcos correspondem ao antigo Paço dos Estaus. Como na altura não tive a sensibilidade de percorrê-los à procura de mais indícios, fi-lo agora no Google Maps, onde, para além de muitas casas que apresentam duas portas no rés do chão e uma janela central no 1º. andar (possivelmente condicionadas pela fachada da antiga estalagem), existem à vista desarmada o que parecem ser os arranques de dois arcos, cada um num lado oposto da Rua dos Arcos.
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Terras
Local:
Tomar, Portugal
Sinagoga de Tomar
O primeiro dos muitos locais com que vou atafulhar a internet nos próximos dias é a Sinagoga Tomar, um edifício que passa despercebido aos turistas (só o visitei por indicação de um alfarrabista). Evitaremos referências à Santa Inquisição, mas não resistimos a citar a Santa Wikipédia.
A Sinagoga de Tomar é o único templo judaico proto-renascença existente actualmente no país. A sala destinada ao culto desenvolve-se num espaço de planta quadrada, com piso inferior ao do exterior, dividido em três naves de três tramos, apresentando uma tipologia semelhante à de outras sinagogas sefarditas quatrocentistas. O tecto, em abóbada de tijolo de arestas vivas, é suportado por quatro elegantes colunas, com capitéis de lavores geométricos e vegetalistas, e por mísulas embebidas nas paredes. A disposição destes elementos encerra um significado simbólico: as doze mísulas simbolizam as doze tribos de Israel, enquanto que as quatro colunas representam as quatro matriarcas – Sara, Rebeca, Lea e Raquel. Estas duas últimas matriarcas são as filhas de Labão, facto que explica a razão por que os capitéis são iguais em duas colunas e diferentes nas restantes.
Depois de algumas escavações feitas no local, foi encontrada uma sala de planta rectangular, adossada ao edifício principal, destinada ao mikvah, o banho ritual de purificação das mulheres.
O rápido crescimento demográfico, ao longo do século XV, suscitou a criação de uma judiaria, com o encerramento de portas entre o pôr e o nascer do sol. Estas portas situar-se-iam nas extremidades ocidental e oriental desta rua, que passou a ser designada de Rua da Judiaria, mais especificamente nos cruzamentos com as Ruas do Moinho e Direita, respectivamente. A situação da Judiaria, próxima do centro económico e social da então vila, é bem demonstrativa da importância que a comunidade assumiu na sociedade nabantina. De facto, calcula-se que a população judaica de Tomar andasse, em meados do século XV, em cerca de 150 a 200 indivíduos, tendo chegado a atingir uma significativa proporção de 30 a 40% do total de habitantes da vila, na sequência da chegada dos judeus espanhóis, expulsos em 1492.
É neste contexto que se dá a fundação da sinagoga, em meados do século XV, motivada pelo crescente número de fiéis. A construção deu-se por ordem do Infante D. Henrique, que ao que tudo indica protegia a comunidade hebraica da vila, facto a que não é alheio o cargo que exercia, de mestre da Ordem de Cristo. No entanto, a existência deste templo seria efémera, pois logo em 1496, com a conversão forçada dos judeus ao cristianismo decretada por D. Manuel I, a Judiaria da vila, à semelhança de todas as outras do reino, é abolida, sendo também encerrada a sua sinagoga. O nome da rua é então mudado para Rua Nova, transitando muitos dos cristãos-novos (judeus convertidos ao cristianismo) para outros arruamentos, enquanto cristãos-velhos se instalavam nas casas deixadas devolutas.
O espaço da sinagoga passou então, a partir de 1516, a ser utilizado como cadeia pública. Entre os finais do século XVI e os inícios do XVII, depois das necessárias obras, o edifício passou a local de culto cristão, como Ermida de São Bartolomeu. Após a sua profanação, no século XIX, o antigo templo foi utilizado como palheiro, servindo em 1920, aquando da visita de um grupo de arqueólogos portugueses, de adega e de armazém de mercearia. No ano seguinte, o edifício foi classificado como Monumento Nacional, tendo sido adquirido em 1923 pelo Dr. Samuel Schwarz. Este judeu polaco, investigador da cultura hebraica, suportou obras de limpeza e desaterro, doando o edifício ao Estado em 1939, sob a condição de aqui ser instalado um museu luso-hebraico.
Para efeitos acústicos, encontram-se colocadas, embutidas na parede dos cantos, oito bilhas de barro viradas ao contrário, que comunicam com a sala através de orifícios.
E como miminho aqui segue a contextualização histórica:
É neste contexto que se dá a fundação da sinagoga, em meados do século XV, motivada pelo crescente número de fiéis. A construção deu-se por ordem do Infante D. Henrique, que ao que tudo indica protegia a comunidade hebraica da vila, facto a que não é alheio o cargo que exercia, de mestre da Ordem de Cristo. No entanto, a existência deste templo seria efémera, pois logo em 1496, com a conversão forçada dos judeus ao cristianismo decretada por D. Manuel I, a Judiaria da vila, à semelhança de todas as outras do reino, é abolida, sendo também encerrada a sua sinagoga. O nome da rua é então mudado para Rua Nova, transitando muitos dos cristãos-novos (judeus convertidos ao cristianismo) para outros arruamentos, enquanto cristãos-velhos se instalavam nas casas deixadas devolutas.
O espaço da sinagoga passou então, a partir de 1516, a ser utilizado como cadeia pública. Entre os finais do século XVI e os inícios do XVII, depois das necessárias obras, o edifício passou a local de culto cristão, como Ermida de São Bartolomeu. Após a sua profanação, no século XIX, o antigo templo foi utilizado como palheiro, servindo em 1920, aquando da visita de um grupo de arqueólogos portugueses, de adega e de armazém de mercearia. No ano seguinte, o edifício foi classificado como Monumento Nacional, tendo sido adquirido em 1923 pelo Dr. Samuel Schwarz. Este judeu polaco, investigador da cultura hebraica, suportou obras de limpeza e desaterro, doando o edifício ao Estado em 1939, sob a condição de aqui ser instalado um museu luso-hebraico.
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igrejas
Local:
Tomar, Portugal
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Cidade romana de Collippo
Vou iniciar uma rubrica chamada Correio dos Leitores, onde exponho uma criteriosa seleção das centenas de missivas que recebo diariamente no meu correio.
"Eng., sabe qual é o paradeiro da antiga cidade de Collippo? É que já dei cabo das costas a tentar encontrá-la e até agora só descobri um tomo da Enciclopédia Luso-Brasileira, que, por muito lúdico que seja, deduzo não estar relacionado com a imponente povoação romana."
A resposta a esta pergunta não é óbvia, e exige uma leitura atenta do artigo "Collipo: análise dos espaços públicos", de João Pedro Bernardes, e presente no livro "Cidade e foro na Lusitânia Romana".
Na descrição pliniana dos oppida da faixa litoral portuguesa aparece Collippo, como um povoado túrdulo, a sul de Conimbriga. O radical –ippo do topónimo latino parece confirmar este povoado como um dos turdulorum oppida fora da sua área natural (villar, 1999) e que poderá ter as suas origens aquando da migração de populações provocada pela pressão cartaginesa sobre o litoral da Andaluzia, sobretudo a partir de meados do século III a.C. após a derrota na primeira guerra púnica. Situada entre as cidades de Conimbriga e Eburobrittium, na faixa central atlântica portuguesa, o antigo povoado túrdulo passará no período imperial romano a capital de civitas, conforme é demonstrado por várias inscrições (CIL II, 339, 340, 353; CIL IIs, 5232; CIL VI, 16100; Bernardes, 2007, nº 26, 27). Ficava localizada numa colina entre os actuais concelhos de Leiria e Batalha, no sítio de S. Sebastião do Freixo, onde têm sido recolhidos desde o século XIX variados elementos que atestam ter sido ali que teve assento a cidade, de acordo com a tradição e as ruínas ainda visíveis no século XIX (Leal, 1874, p. 70).
(...)
No século XII o espaço já é conhecido por Palácio de Randulfo, tendo-se perdido definitivamente o nome Collippo, apesar da tradição dos séculos seguintes se referirem às ruínas então aí visíveis como os vestígios de uma cidade antiga que teve ali assento. Todavia, o antropónimo Randulfo, de conotação germânica, não deixa dúvidas quanto ao facto do sítio ter tido uma continuidade de ocupação ainda que pouco significativa ao ponto de ter perdido qualquer estatuto de centralidade.
(...)
Todavia, ainda no século XIX, Pinho Leal (1874, p. 70) dá conta no local de alicerces antigos e, em 1909, Tavares Proença Júnior, ao referir-se nos seus manuscritos, guardados no museu de Castelo Branco, a uma inscrição funerária que teria comprado, acrescenta que teria aparecido ao retirarem pedra das ruínas das edificações do oppidum. Como facilmente se depreende, há cerca de cem anos ainda eram visíveis os alicerces de muitos edifícios romanos que continuavam a ser delapidados. A intensificação dos trabalhos agrícolas a par da progressiva introdução de meios mecânicos, passarão, a partir de agora, a arrancar e arrasar as ruínas soterradas. A expressão de um velho dos anos setenta, natural da povoação vizinha dos Andreus, que dizia na sua juventude haver ali “uma estrumeira de cantarias”, referindo-se aos campos em redor de S. Sebastião (Santos, 1971), é assaz elucidativa. De acordo com informações obtidas, era frequente, há cerca de cinquenta anos, ver amontoados de tijolos e cantarias retirados dos campos após as lavras. Muitos desses entulhos chegaram mesmo a ser levados pelo exército que vinha para aqui fazer tiro de artilharia. A área correspondente ao forum e termas, estava, já por essa altura, extremamente destruída, conforme viria a ser confirmado pelas consecutivas campanhas de escavações ali realizadas nos anos 60 e em 1975. Até meados do século, porém, os níveis de destruição do ponto mais alto da colina e dos terrenos que daqui se estendiam até à Quinta, ainda eram relativos. A ocupação desta área por um denso carvalhal deveria ter conservado muitas das ruínas soterradas. A venda da quinta de S. Sebastião aos ascendentes dos actuais proprietários irá, contudo, ditar a destruição desta zona de ruínas. O carvalhal é substituído por um eucaliptal, devendo o arranque do bosque de carvalhos e consequente arroteamento para o plantio de eucaliptos ter provocado destruições significativas. De igual modo, a exploração de saibros e areias na parte mais alta do monte arrasou por completo as estruturas ainda ali existentes, tendo este morro, de acordo com informações recolhidas, sido rebaixado cerca de 2 / 3 metros. Já nos anos sessenta, o arranque de parte dos eucaliptos e o plantio de vinha viria a destruir mais estruturas, tendo havido necessidade de recorrer a tiros de pólvora para rebentar com alguns elementos mais pesados (Brandão, 1972, p. 57). Os anos setenta e inícios de oitenta acabariam por ver a destruição do pouco que ainda existia. Na vertente norte daquele morro, o rompimento da terra em profundidade por meio de uma bulldozer para plantio de vinha teria destruído os poucos muros ainda existentes, tal como os postos a descoberto nas escavações ali efectuadas, e, eventualmente, o que restaria das termas. Do lado sul do morro, entre este e a quinta, o trabalhar de uma bulldozer durante um mês revolveu as terras até ao solo virgem tendo destruído, segundo nos informaram, grandes quantidades de muros soterrados. Perante tanta acção destruidora não é difícil compreender que mesmo uma velha cidade de pedra possa desaparecer quase por completo!
E assim está explicado o paradeiro de Collipo. Escusamo-nos, portanto, a gastar gasolina nesta viagem.
"Eng., sabe qual é o paradeiro da antiga cidade de Collippo? É que já dei cabo das costas a tentar encontrá-la e até agora só descobri um tomo da Enciclopédia Luso-Brasileira, que, por muito lúdico que seja, deduzo não estar relacionado com a imponente povoação romana."
A resposta a esta pergunta não é óbvia, e exige uma leitura atenta do artigo "Collipo: análise dos espaços públicos", de João Pedro Bernardes, e presente no livro "Cidade e foro na Lusitânia Romana".
Na descrição pliniana dos oppida da faixa litoral portuguesa aparece Collippo, como um povoado túrdulo, a sul de Conimbriga. O radical –ippo do topónimo latino parece confirmar este povoado como um dos turdulorum oppida fora da sua área natural (villar, 1999) e que poderá ter as suas origens aquando da migração de populações provocada pela pressão cartaginesa sobre o litoral da Andaluzia, sobretudo a partir de meados do século III a.C. após a derrota na primeira guerra púnica. Situada entre as cidades de Conimbriga e Eburobrittium, na faixa central atlântica portuguesa, o antigo povoado túrdulo passará no período imperial romano a capital de civitas, conforme é demonstrado por várias inscrições (CIL II, 339, 340, 353; CIL IIs, 5232; CIL VI, 16100; Bernardes, 2007, nº 26, 27). Ficava localizada numa colina entre os actuais concelhos de Leiria e Batalha, no sítio de S. Sebastião do Freixo, onde têm sido recolhidos desde o século XIX variados elementos que atestam ter sido ali que teve assento a cidade, de acordo com a tradição e as ruínas ainda visíveis no século XIX (Leal, 1874, p. 70).
(...)
No século XII o espaço já é conhecido por Palácio de Randulfo, tendo-se perdido definitivamente o nome Collippo, apesar da tradição dos séculos seguintes se referirem às ruínas então aí visíveis como os vestígios de uma cidade antiga que teve ali assento. Todavia, o antropónimo Randulfo, de conotação germânica, não deixa dúvidas quanto ao facto do sítio ter tido uma continuidade de ocupação ainda que pouco significativa ao ponto de ter perdido qualquer estatuto de centralidade.
(...)
Todavia, ainda no século XIX, Pinho Leal (1874, p. 70) dá conta no local de alicerces antigos e, em 1909, Tavares Proença Júnior, ao referir-se nos seus manuscritos, guardados no museu de Castelo Branco, a uma inscrição funerária que teria comprado, acrescenta que teria aparecido ao retirarem pedra das ruínas das edificações do oppidum. Como facilmente se depreende, há cerca de cem anos ainda eram visíveis os alicerces de muitos edifícios romanos que continuavam a ser delapidados. A intensificação dos trabalhos agrícolas a par da progressiva introdução de meios mecânicos, passarão, a partir de agora, a arrancar e arrasar as ruínas soterradas. A expressão de um velho dos anos setenta, natural da povoação vizinha dos Andreus, que dizia na sua juventude haver ali “uma estrumeira de cantarias”, referindo-se aos campos em redor de S. Sebastião (Santos, 1971), é assaz elucidativa. De acordo com informações obtidas, era frequente, há cerca de cinquenta anos, ver amontoados de tijolos e cantarias retirados dos campos após as lavras. Muitos desses entulhos chegaram mesmo a ser levados pelo exército que vinha para aqui fazer tiro de artilharia. A área correspondente ao forum e termas, estava, já por essa altura, extremamente destruída, conforme viria a ser confirmado pelas consecutivas campanhas de escavações ali realizadas nos anos 60 e em 1975. Até meados do século, porém, os níveis de destruição do ponto mais alto da colina e dos terrenos que daqui se estendiam até à Quinta, ainda eram relativos. A ocupação desta área por um denso carvalhal deveria ter conservado muitas das ruínas soterradas. A venda da quinta de S. Sebastião aos ascendentes dos actuais proprietários irá, contudo, ditar a destruição desta zona de ruínas. O carvalhal é substituído por um eucaliptal, devendo o arranque do bosque de carvalhos e consequente arroteamento para o plantio de eucaliptos ter provocado destruições significativas. De igual modo, a exploração de saibros e areias na parte mais alta do monte arrasou por completo as estruturas ainda ali existentes, tendo este morro, de acordo com informações recolhidas, sido rebaixado cerca de 2 / 3 metros. Já nos anos sessenta, o arranque de parte dos eucaliptos e o plantio de vinha viria a destruir mais estruturas, tendo havido necessidade de recorrer a tiros de pólvora para rebentar com alguns elementos mais pesados (Brandão, 1972, p. 57). Os anos setenta e inícios de oitenta acabariam por ver a destruição do pouco que ainda existia. Na vertente norte daquele morro, o rompimento da terra em profundidade por meio de uma bulldozer para plantio de vinha teria destruído os poucos muros ainda existentes, tal como os postos a descoberto nas escavações ali efectuadas, e, eventualmente, o que restaria das termas. Do lado sul do morro, entre este e a quinta, o trabalhar de uma bulldozer durante um mês revolveu as terras até ao solo virgem tendo destruído, segundo nos informaram, grandes quantidades de muros soterrados. Perante tanta acção destruidora não é difícil compreender que mesmo uma velha cidade de pedra possa desaparecer quase por completo!
E assim está explicado o paradeiro de Collipo. Escusamo-nos, portanto, a gastar gasolina nesta viagem.
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Castelo de Montemor-o-Velho
Desta vez, devido ao parco arquivo da DGEMN deste monumento, não posso apresentar as modificações introduzidas entre os anos 30 e 40 do século passado neste castelo. Mas não é grave, visto que ainda sobra muito assunto.
Pelo menos não fomos impedidos de chegar ao castelo, não podendo dizer o mesmo um casal de idosos que estava à nossa frente. Isto porque apesar de haver uma aparatosa escada rolante com vários lanços encosta acima, estava desligada, visto termos o azar de nos deslocarmos a esta povoação numa altura não eleitoral.
Mas o esforço compensou, e lá em cima somos confrontados com a Igreja de Santo António, cuja demolição foi planeada por altura do restauro do castelo, mas não passou da remoção do recheio e do telhado. [1]
Mais à frente, encontra-se a Igreja de Santa Madalena, que já existia no século XIII e tem uma torre sineira manuelina.
Dentro do castelo, existe a Igreja de Santa Maria da Alcáçova, que foi edificada em 1090, época da qual só restam as absides. O resto data do ínicio do século XVI, sendo portanto característico de um "Manuelino duma primeira fase, naturalista e duma relativa simplicidade construtiva" [2] (também podemos observar a diferença do manuelino tardio no topo dos arcos, que é gótico).
E pronto, assim foi um post sobre um castelo sem arquivos da DGEMN. Mas este castelo tinha muito mais por onde pegar do que só isso.
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