terça-feira, 13 de outubro de 2015

Igreja de Santa Justa, Coimbra

Mais uma vez, ficamos com as palavras de quem percebe do assunto, neste caso Ana Sofia Gervásio e Carmen Pereira, autoras de um artigo sobre a escavação que fizeram entre 2003 e 2004:

As notícias mais antigas que existem sobre a atual zona do Terreiro da Erva remontam a 1100, data de fundação de um mosteiro dedicado a Santa Justa, padroeira dos oleiros. De facto, a zona encontra-se em pleno bairro medieval das olarias. Na época afonsina a igreja, o claustro e as construções anexas, foram reedificadas pelo Presbítero Rodrigo, e no séc. XIII/XIV sofreram uma nova reforma.



Na igreja de Santa Justa mantinham-se os serviços religiosos, e apesar do templo estar reconstruído, o rio Mondego continuava a visitá-lo. No dia 1 de fevereiro de 1708 as águas entraram na igreja, chegando à tribuna do altar-mor. Nessa mesma noite o Santíssimo Sacramento foi retirado para a igreja de S. Bartolomeu, e a 24 de fevereiro do mesmo ano, foi transladado para a igreja de Santiago. Os danos forçaram o abandono da igreja de Santa Justa, e a criação da fundação de um novo edifício num olival em terreno sobranceiro à planície junto às portas de Santa Margarida. Em 24 agosto de 1710, o bispo conde D. António de Vasconcelos e Sousa benzeu e lançou a primeira pedra de construção da nova igreja, e no ano de 1724 foi sagrada pelo Deão da Sé, Luís Pereira de Sampaio, passando assim os serviços religiosos para a nova igreja. Esta nova igreja, homónimo da antiga, substituiu, assim, o templo medieval do Terreiro da Erva.

Na análise da planta datada de 1907 é possível vislumbrar um alinhamento das edificações perto dos indícios existentes da igreja. Esse alinhamento poderá ter sido originado pelo aproveitamento de uma pré – existência, nomeadamente uma das paredes do templo (realçado a verde). Nesta planta verificam-se igualmente os topónimos, que ainda hoje subsistem, indicadores da presença da igreja e da sua localização, como “Adro de Santa Justa” ou “Páteo do Prior”, hoje Quintal do Prior (realçados a vermelho). 



A demolição das casas que na figura anterior surgem com um círculo a verde explica-se por em 1934 o Adro de Santa Justa, o Quintal do Prior e o Terreiro da Erva, que circundavam a antiga igreja, estarem por elas separados, tendo-se com a sua demolição criado a praça que hoje existe.



Uma vez fui indagar um velhote, que sempre morou na zona, se havia algum vestígio da antiga igreja e ele apontou-me para uma gárgula num prédio como o único que conhecia.


No entanto, sobreviveram, reutilizadas como serralharia e mais recentemente loja de peças para automóveis, a capela mor e a capela do seu lado direito, que se encontravam assim no século passado:


Apesar disso, o projeto para o Terreiro da Erva previa a demolição deste imóvel (é o que surge da direita para o centro do largo):


No entanto, este projeto foi revisto e hoje já contempla a preservação das ruínas:


As obras discretamente já começaram, ficando a cabeceira da antiga igreja isolada das outras habitações, à espera do destaque que merece:




quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Hospital de S. Lázaro, Coimbra

Existe uma abrangente tese de mestrado sobre esta instituição, da autoria de Ana Rita Rocha, que vou passar a citar:

A cidade de Coimbra beneficiou, desde o início do século XIII, da existência de um hospital destinado ao acolhimento dos doentes que sofriam de lepra. Foi em Outubro de 1210 que D. Sancho I, no seu segundo testamento, deu ao abade de Alcobaça, D. Fernando Mendes, seu testamenteiro, 10 000 morabitinos “de quibus faciat unam gafariam in Colimbria”.


Esta instituição, tal como as suas congéneres, foi criada com o objectivo específico de acolher os doentes que padeciam de lepra. Por um lado, afastavam-se os leprosos da sociedade sã, de modo a evitar o contágio. Por outro, com o enquadramento institucional dos gafos, como também eram conhecidas as vítimas de lepra, eram lhes fornecidos os bens essenciais à sua sobrevivência. A Gafaria de Coimbra prestava assistência, igualmente, a indivíduos sãos, por comparação aos leprosos, que, pelo avançar da idade ou devido a uma doença debilitadora, necessitavam de auxílio económico, procurando-o junto de casas destinadas a esse fim.


Relativamente à arquitectura das leprosarias, estas instituições estavam munidas de todas, ou quase todas, as dependências necessárias à sua auto-suficiência, permitindo aos seus habitantes nelas permanecer o maior tempo possível, sem necessidade de se deslocar aos aglomerados.



Deste modo, numa grande parte de leprosarias existiam jardins, hortas e pomares, onde se colhiam os legumes e frutas utilizados na sua dieta. Além disso, o poço era um dos elementos essenciais numa gafaria, já que os leprosos não se deviam aproximar das fontes e nascentes para não contaminarem as águas. No entanto, no interior das leprosarias continuava a ser proibida a aproximação dos gafos a essa estrutura. Era o que acontecia na Gafaria de Coimbra, em cujo Regimento, datado de 1329, estava estipulada uma multa de 5 soldos em caso de “alguum gafo chegar ao poço”, mantendo-se, dentro da própria instituição, normas profilácticas. 



O medo de contágio da lepra era tal que, no século XV, no Regimento de D. Afonso V, temos notícia da existência, nessa mesma gafaria, de uma cadeia destinada aos leprosos que cometessem algum delito, justificando-se mesmo a decisão afirmando que “nom he razoado que sejam levados aa prissao dos saaos”.



No século XVI sabemos que o Hospital de S. Lázaro se situava num terreno entre as actuais rua da Figueira da Foz e avenida Fernão de Magalhães, na chamada azinhaga dos Lázaros, que partia da primeira em direcção ao Mondego, onde ainda no século XX se encontravam as ruínas do edifício. A localização quinhentista da Gafaria é confirmada pela existência de vestígios manuelinos, descritos por autores que visitaram o local, na centúria passada.



O primeiro indício de alteração do local de implantação da Gafaria de que temos conhecimento é a autorização dada por D. Afonso V, em Fevereiro de 1452, aos oficiais, lázaros e raçoeiros sãos para nomearem dois homens bons responsáveis por pedir esmolas pelo reino, com o objectivo de transferir o hospital para um terreno, que lhe pertencia, mais acima do lugar onde se encontrava, junto ao rio. A decisão do monarca surgiu na sequência de um pedido dos membros da gafaria, uma vez que as cheias anuais do rio tornavam a leprosaria inacessível e causavam demasiados danos materiais, colocando em risco a sobrevivência dos seus habitantes. 



Pelas referências espaciais, a deslocação assinalada corresponderia à mudança de S. Lourenço, na zona do Arnado, onde existia um porto fluvial e as inundações do Mondego eram muito frequentes, para o terreno junto da actual rua da Figueira da Foz, localizado mais acima, que poderemos interpretar como norte, e um pouco mais afastado do rio. Apesar de não existir um documento que nos indique a data de mudança de localização da Gafaria, sabemos que, em 1459, esta encontrava-se já na azinhaga dos Lázaros, junto da ermida de Santa Margarida. 

Como podem ter reparado pelas imagens, este local, onde se localizou o hospital desde pouco antes de 1459 até 1836, já esteve de melhor saúde. Como tudo o que é património arruinado e desprezado, tenho-o acompanhado há uns tempos. Em 2011, estava assim:



As maiores alterações decorreram em 2009 [fonte]:


Podemos comparar o local antes e depois da demolição:




O antigo Hospital dos Lázaros foi parcialmente demolido, ao nível do 1º andar, de emergência, devido ao avançado estado de ruína. Este trabalho consistiu no acompanhamento arqueológico da seriação de todos os materiais arqueologicamente relevantes. 
No dia 14 de Fevereiro de 2009 o Gabinete de Protecção Civil juntamente com a Câmara Municipal de Coimbra procedeu à demolição parcial do antigo edifício do Hospital dos Lázaros. Todo o entulho foi removido para o Choupal. Este trabalho consiste em realizar o acompanhamento da seriação dos materiais que compõem os entulhos, entretanto removidos para o Choupal. Este era constituído por madeiras, ferro, lixo, pedras de grande porte e cantarias. Destacaram-se as cantarias e outras pedras talhadas, que foram separadas, inventariadas e acondicionadas em armazém no estaleiro da Câmara Municipal de Coimbra a fim de, se possível serem reutilizadas posteriormente. Estavam muito fragmentadas e eram simples, sem ornamentos. 

Fazer a "seriação de todos os materiais relevantes" com fim a encontrar cantarias com "ornamentos" nas ruínas de uma instituição de solidariedade social é o mesmo que procurar um parque infantil num campo de concentração.
Um hospital da idade média não passa a merecer a demolição por não ser uma obra prima da arquitetura. Elas também existem, mas não estavam ao cuidado dos leprosos e outros doentes, para os quais as gafarias eram o único auxílio.
A demolição do Hospital de S. Lázaro em Coimbra, "devido ao avançado estado de ruína", é parte da maneira como escolhemos ver a nossa história. Publicitamos os palácios e os bens luxuosos da nobreza, e passamos um pano sobre todos os quais lutaram e sofreram antes de nós. É uma perspetiva puramente comercial do património, que só interessa se tiver características que apelem ao turismo de massas, independentemente do contexto e da sua importância para a sociedade (este imóvel, por exemplo, é um antecessor dos atuais hospitais).

O pior está ainda para vir. O terreno está à venda no Olx, divido entre a zona do parque de estacionamento e por debaixo da qual estão as fundações do hospital, por 970 mil euros, e as construções atualmente visíveis, por 650 mil euros, com a descrição "Ideal para construção de prédios, serviços e habitação."
Se a demolição anterior foi iniciativa da autarquia, há razões para esperar que ela se venha a opor a qualquer ação neste espaço.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Aventuras passadas

Tenho uma câmara fotográfica desde 2003, e desde então que documento os meus passeios. Desta vez sem esmiuçar os locais que visito, aqui vai uma espreitadela no arquivo:


Tavira, 2003.



Cabanas de Viriato, 2003.



Serra da Estrela, 2003.



Faro, 2003.



Funchal, 2005.



Lisboa, 2006.



Óbidos, 2006.



Santa Comba Dão, 2007.



Figueira da Foz, 2008.



Albufeira, 2008.



Caldas da Rainha, 2009.


Estaleiros de São Jacinto, Aveiro

Sábado à tarde fui às ruínas dos Estaleiros de São Jacinto, numa iniciativa promovida pela ADERAV.


Assim eram os estaleiros em 1956:

 [fonte]

E hoje em dia:


Desde que encerraram em 2006, têm sofrido uma acelerada destruição.



Três incêndios num período de 15 dias em 2010 fizeram ruir a maior parte dos pisos e coberturas.





Todos os metais, portas e telhas têm sido furtados.






Aqui fica uma interessante reportagem sobre o dia a dia no estaleiro pouco antes do seu fecho:




sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Fábrica Jerónimo Pereira Campos, Aveiro

No passado fim-de-semana foram as Jornadas Europeias do Património, este ano subordinadas ao Património Industrial e Técnico. Passei o sábado em Aveiro, tendo a manhã sido dedicada a uma iniciativa do Museu de Aveiro sobre a Fábrica Jerónimo Pereira Campos.

 

Esta fábrica, dedicada sobretudo à produção de telhas, foi construída em 1917, sendo gradualmente ampliada.


Entre 1990 e 1995 foi transformada em centro de congressos, tendo sido aproveitado pouco mais do que a fachada [fonte]:



No entanto, o aspeto exterior ficou intacto:



Também restou o forno, onde eram cozidas as telhas:



Os próprios tijolos da cobertura do forno derretiam com as altas temperaturas: