terça-feira, 20 de setembro de 2016

Vila Nova de Foz Côa

À chegada a Foz Côa apanhámos um incêndio:






Foi chato, mas lá continuámos a viagem:


Em Foz Côa chamou-me a atenção um emparedamento que passaria despercebido não fosse a atenção que lhe propositadamente é dada (nem o nº de porta falta - será por obrigação legal?)


E à Lídia chamou a atenção esta parede que revela os segredos escondidos da construção de casas de xisto.


Agora os leitores já podem construir a vossa própria casinha de xisto (estava a brincar, são construções horríveis e vão cair em cima dos vossos filhos quando estiverem a dormir).

O que mais me impressionou em Foz Côa foi no entanto a Igreja Matriz:


O portal é uma obra prima manuelina, mas fiquei fascinado quando ao entrar percebi que o lado direito da igreja estava inclinado como nunca tinha visto em nenhuma outra construção:


Será o maior testemunho do mítico terramoto de 1755 que ainda existe? (já que o Convento do Carmo faz mais pelos restauros românticos do século XIX que pelo terramoto em si)


sábado, 17 de setembro de 2016

Marialva, distrito da Guarda

Marialva é a primeira Aldeia Histórica que visitei (ficam longe) e divide-se em três núcleos - Devesa, Arrabalde e intra-muros.

A zona da Devesa fica no sopé do monte e é a mais recente. Esta é uma construção típica do concelho de Mêda:


O Arrabalde é mais antigo - fica abaixo da muralha que circunda o primitivo povoado:

 

Em 1527/32 viviam 73 morados no Arrabalde e 68 intra-muros, enquanto em 1732 eram 76 fora e 32 dentro. Nesta altura era alcaide mor o Marquês de Távora, o que se revelou desagradável já que depois da sua condenação o castelo caiu em ruínas e o espaço intra-muros foi completamente abandonado, sendo utilizado no século XX já só para espaços públicos - duas igrejas, cemitério e escola primária (na antiga câmara, que foi sede de concelho até 1855). [fonte]

O espaço intra-muros está hoje todo destruído, tirando algumas reconstruções que para bom entendedor meia parede basta.




A Torre de Menagem foi reconstruída pelo Estado Novo em 1942, e comparando com uma foto que vá se lá saber como a Lídia tirou exatamente do mesmo sítio de uma anterior (e ela não tirou assim tantas) podemos ver como são insondáveis os critérios dos restauradores:



E as ameias amigos, onde as meteram?

Há uma outra particularidade que podemos ver nesta foto, que é a aldeia estar cheia de oliveiras, plantadas pelos habitantes nas casas dos antepassados (sem conotação histórica, só mesmo pelo azeite).

Outra espécie que encontrámos dentro do recinto fortificado de Marialva foi a figueira-do-inferno, que chamou à Lídia os seus instintos básicos de agricultora e se pôs desfreadamente a colhê-la para travar a sua disseminação.


A melhor forma de ter experiências etnográficas nos lugares que visito continua a ser trazer sempre toda uma etnografada na mala do Nissan.


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Forte da Consolação, concelho de Peniche

Ando muito caseiro. Desta vez fui ao Forte da Consolação com o meu tio e a minha prima.


O Forte da Praia da Consolação, situado na Atouguia da Baleia, foi mandado edificar em 1641 por D. Jerónimo de Ataíde, Conde de Atouguia e senhor de Peniche. 


A edificação desta fortificação tinha como objectivo reforçar a defesa da enseada de Peniche, cruzando fogo com a fortaleza da vila. Na realidade, a sua construção inseria-se numa estratégia desenvolvida em toda a linha costeira do Reino, que visava a substituição da "(...) barragem de fogo das fortalezas por uma sucessão de pequenos pontos fortificados, segundo um princípio de mobilidade táctica (...)"



As obras de construção da fortaleza foram terminadas em 1645, mas poucos anos depois, em 1665, a estrutura da plataforma terá sido ampliada.. Cerca de cem anos depois, em 1755, o grande terramoto que assolou o país destruiu parte da bateria que estava voltada ao mar. 



Em 1947, já desactivado das suas funções militares, o Forte da Praia da Consolação foi ocupado por uma colónia de férias, e em 1974 foi instalada no local a sede da Associação Recreativa Forte Clube da Consolação.



Em 2003 a arriba onde assenta a fortificação estava assim:




Em 2012, já sem a muralha à vista:


Felizmente em 2014 houve uma grande intervenção na arriba, sendo colocadas estacas metálicas:


Que depois foram cobertas com cimento:


No meio disto o forte foi transformado num estaleiro. Houve duas sequelas - a fundação da grua obrigou a escavar um buraco no meio da antiga praça do forte:


E o acesso à arriba fez-se pelo antigo fosso militar:


Isto foi feito sem acompanhamento arqueológico, o que é uma pena. De qualquer forma, sem esta obra o forte não ia durar muito mais tempo, por isso o balanço é positivo.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Atouguia da Baleia, concelho de Peniche

A Lídia andava-se a queixar de que eu não lhe mostrava a minha terra, por isso levei-a a conhecer a Atouguia da Baleia, que não é a minha terra, mas é a antiga sede do concelho, portanto melhor.


Começámos pela Igreja de São Leonardo, que é para mim o melhor monumento do concelho.

A igreja de São Leonardo de Atouguia da Baleia é uma das principais realizações góticas que definem o que se convencionou chamar Gótico Paroquial, um fenómeno construtivo que percorreu grande parte do país, em particular as principais localidades do litoral, durante os reinados de D. Dinis e D. Afonso IV, entrando, mesmo, pelas primeiras décadas do século XV.



A construção do conjunto anda atribuída à transição para o século XIV e, estilisticamente, alguns autores reconhecem nela indícios de arcaísmo, em particular ao nível dos capitéis, embora esta apreciação mereça ser revista num século XIV bastante heterogéneo em termos decorativos. 


No início do século XVI, a matriz de Atouguia era uma importante igreja da Estremadura, a ponto de ser novamente enriquecida com empresas vincadamente manuelinas.
Nas décadas seguintes, o interior foi esteticamente actualizado, com inclusão de pinturas murais (de que restam escassos elementos), mas a história da igreja acompanhou, de perto, a da própria vila: a partir do momento em que Atouguia perdeu importância, em benefício de Peniche, a igreja ressentiu-se, não mais voltando a ser objecto de grandes reformas, o que permitiu que tivesse chegado até aos nossos dias em relativo bom estado de conservação.


Quando Peniche ainda era uma ilha a Atouguia tinha um porto (hoje está dois quilómetros afastada da costa) defendido por um castelo, do qual hoje resta um pano de muralha e um torreão:


Estes dois monumentos são melhor enquadrados se vistos do local por onde as embarcações acediam ao antigo porto, nesta foto que tirei para um post que escrevi sobre a Atouguia há quatro anos atrás (o primeiro do género que faço agora no blog atual, e que nem no título consegue esconder a inspiração).


Perto do castelo existe a Fonte de São Leonardo, à qual tirei esta foto há quatro anos:


Desde então a fonte ganhou um capitel e eu esta moça:


Possui cerca de seis metros de profundidade, mas ao tempo em que se laborava no porto, esta se mantinha ao mesmo nível deste. Com o assoreamento do vale, a mesma foi subindo suas paredes até chegar aos dias de hoje, como se encontra actualmente. No fundo da fonte, e do lado da igreja nasce a água por um buraco semi-circular, pois deve ter sido esse o seu princípio em tempos muito remotos, que deu água a tantas gerações. Soterrado um pouco abaixo do nível do actual piso, existe um brazão da Vila de Atouguia, que só tem um touro com um castelo em cada corno, diferente daquele que lá se encontra a descoberto possuindo dois touros, bebendo em uma pia.


A Fonte Gótica viu a sua envolvente ser arranjada, no entanto apresenta-se incompleta, visto que era coroada por ameias.


No início do século passado ainda havia vestígios da sua anterior glória:


Entre as duas fontes, há duas cantaria que chamam a atenção (calma, puristas! eu não estou a mencionar a do Largo de São Leonardo que pertencia aos antigos Paços do Concelho senão tinha de falar da sua demolição no início do século passado e vocês sabem como essas coisas me partem a alma). Esta é manuelina, portanto de inícios do século XVI:


Esta será porventura também manuelina, e tem uns detalhes muito interessantes:


Já a Igreja de Nossa Senhora da Conceição é de 1698:


E é assim a Atouguia da Baleia. Eu ainda gostava de falar um pouco sobre as pedras que se veem nesta ultima imagem e o significado do brasão, mas deixo para um próximo post visto que este já vai longo e tenho os livros em Peniche.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Bustos, Tocha

Em Tocha chamam a atenção estes bustos enjaulados:




À primeira vista pareceu-me uma liberdade criativa do escultor, mas na verdade foram colocados a posteriori para evitar assaltos.

sábado, 4 de junho de 2016

Quinta da Boiça, concelho de Penela

O solar da Quinta da Bouça é um imponente palacete setecentista, com uma fachada de dois pisos com torrões nos extremos, situado 3 ou 4 kms a nascente da vila de Penela. 


A casa foi alterada ao longo da sua história, pois a escadaria exterior de acesso que hoje existe, ao centro da fachada, não é da construção inicial. Como observou Nogueira Gonçalves a porta original (no piso térreo) “ligava-se à sacada média, formando conjunto”. 


De acordo com uma tese de doutoramento recente, de Ana Isabel Sampaio Ribeiro (FLUC, 2012), a quinta pertenceu à família Garrido, tendo o solar sido edificado por iniciativa de Pedro Álvares Garrido, pouco antes de falecer, em 1740.


No interior destaca-se a belíssima sala de jantar, de planta oitavada e teto piramidal em estuque, com passa-pratos de madeira em dois dos ângulos. 


Atrás da casa, com acesso independente desde o exterior, existe a capela, dotada de uma tribuna donde os proprietários podiam assistir às celebrações.


A casa encontra-se atualmente em adiantado estado de degradação - praticamente irreparável caso não seja intervencionada rapidamente.