sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Trancoso, distrito da Guarda

Já faz um mês desde que fomos visitar as aldeias históricas. A última paragem foi Trancoso:



Uma nota muito positiva para esta passagem acanhada, acompanhada in situ por uma nota explicativa.


Datado, provavelmente, de Época Moderna (sécs. XV-XVI), o Boeirinho é o único postigo existente na fortificação de Trancoso. Trata-se de uma pequena e estreita abertura de arco pleno, pela qual passa somente uma pessoa de cada vez, possibilitando, deste modo, a entrada controlada de pessoas na vila sempre que as portas da cerca estavam fechadas. Ainda em 1732, ao toque do sino então localizado na Casa da Câmara, as portas da vila eram encerradas e vigiadas por guardas, sendo por este postigo que entravam, depois de Identificados, os que se encontravam fora de muros. Este tipo de vigilância era possível porque, na altura e até meados do séc. XIX, Trancoso permanecia ainda confinado ao Interior das muralhas medievais. Em 1916, a Câmara propôs ao Ministério da Justiça a demolição deste singular postigo, ao que se opuseram alguns populares. Esta é a última notícia de um longo período, Iniciado nos meados do séc. XIX, em que se operaram grandes transformações no urbanismo da vila. Decorrentes da devastação causada pela invasão Francesa (1810), dos intentos de modernização da vila e da incúria de muitos dos seus habitantes, estas alterações traduziram-se também no desmantelamento de parte do sistema defensivo. Procedeu-se, então, à abertura de vários rasgos nas muralhas para melhorar as acessibilidades, como é o caso das Portas Novas, abertas em 1843 para facilitar o acesso às Sortes situadas no Campo, e da abertura existente no Boqueirão, para que as crianças chegassem mais depressa à escola. Também para melhorar os acessos, em 1902, a Porta de S. João e respectiva torre foram demolidas com toda a popa e circunstância, na presença da Vereação da Câmara e de diversas autoridades. Parte da muralha e as sete torres hoje inexistentes foram também demolidas neste período, para utilização da pedra em construções públicas e privadas. 

Duas coisas que a Lídia não gosta: percorrer muralhas, porque tem vertigens, e andar em cima de certos pavimentos que considera poderem vir a cair.  Fizemos o pleno:


É aliás requisito para qualquer aldeia que se intitule de histórica oferecer a possibilidade de trambolhão e queda aparatosa.

Agora vem a parte do post em que me julgo arquivista da Direção Geral do Património e me ponho a organizar a secção de fotografia. Estas duas fotografias ilustram o castelo antes e depois da intervenção da DGEMN:



Não parece das mais drásticas, mas há vários aspetos a considerar. Para já, porquê subir três fiadas de pedra à muralha? Tinha lá as ameias no sítio e tudo... Seriam as ameias uma reconstrução anterior?

Do lado esquerdo aparece a capela-mor da desaparecida Capela de Santa Bárbara, que sofreu um restauro hesitante:



Depois desta fase, foi decidido que havia pedra a mais e foram tiradas as superiores, como se pode ver pela vista geral e por esta atual, tirada por mim (agora estou somente preocupado em meter fotos que ilustrem a evolução do espaço, no entanto quando estou a passear, e porque não conheço de antemão os arquivos da DGEMN, apenas estou a pensar em tirar boas fotografias, razão pela qual agora me remeto quase em exclusivo à DGEMN, tirando quando apanho perspetivas mais bonitas como a da próxima foto).


Qual o critério para a reconstrução da ruína? Que não sobrassem dúvidas aos visitantes que não havia nada de artificial nesta ruína? Que seguia as leis da gravidade e a erosão dos séculos e numa ruína naturalmente perfeita não há lugar para paredes intactas a partir de certa cota? Será que a criação de ruínas é uma ciência exata que tem de ser respeitada pedra por pedra?

O vasto terreiro, hoje vazio, devia conter edificações que a documentação medieval menciona. Sobre a utilização moderna deste castelo, sabemos que a principal tentativa de lhe dar nova função ocorreu nos finais do século XVIII, culminando em 1796 na construção de um depósito de munições [...] na antiga alcáçova, que felizmente nunca chegou a funcionar, vindo a ser demolido (Gomes, 1996) [fonte]


No entanto a DGEMN achou que por ser um castelo não havia lugar para este edifício mas sim para uma torre:


Para começar, mais três fiadas de pedra:


Depois, mandar abaixo e fazer outra vez, mas agora com aparência medieval:




Para quê se levantarem paredes de novo e deixarem os topos por rematar? Não sou só eu com estas dúvidas, como podemos ver pela evolução da obra vista do lado de dentro:




Num primeiro momento, pareceu-se bem fechar a torre até ao caminho que percorre a muralha.


Mas depois não, houve a necessidade veemente de subir a altura da parede. Que se passou, sobrou pedra?

[...] a notável Torre Moçárabe do castelo de Trancoso, testemunho único em Portugal [...] que se conservou ao longo dos anos, tendo sido mais tarde incorporada dentro do perímetro do castelo românico, do séc. XII-XIII, onde passou a desempenhar as funções de Torre de Menagem. No entanto, trata-se de uma construção muito anterior ao séc. XII, como bem denuncia o seu perfil tronco-cónico, a sua porta em arco ultrapassado e o seu aparelho de construção [...] tudo pormenores que nos remetem para a técnica de construção pré-românica. De resto, no séc. X o castelo ainda ignorava a Torre de Menagem. (Barroca, 2000)  [fonte]


Esta torre sobreviveu à intervenção de 1942, mas por algum motivo em 1968 achou-se por bem desmontá-la e montá-la de novo:


Mas ainda não tinha chegado a esta torre a verdadeira intervenção, justificada assim:

Era possível percorrer o adarve, comtemplar a paisagem e mesmo deambular pelo recinto, mas conhecer o interior da Torre de Menagem, por exemplo, era uma experiência impossível devido à altura a que se encontra a porta de entrada. Ficava-se então apenas pela contemplação do seu exterior.  

Coitado do arquiteto, tem de construir uma escada para dar acesso à torre. De certeza, que com a humildade típica dos arquitetos, e de Gonçalo Byrne em particular, a estrutura a construir será o mais subtil possível, apenas focada na sua necessidade enquanto acesso:


Esta é a grande mais valia deste projeto, conseguir implementar sobre uma pré- existência repleta de história e memória, uma estrutura contemporânea composta por oito corpos arquitectónicos, que passa quase despercebida e se confunde com toda a atmosfera primitiva. Inclusivamente os corpos mais relevantes e imponentes conseguiram manter essa linguagem, sóbria e quase transparente, por mérito do arquiteto que conseguiu conciliar a implantação dos novos corpos, a sua fisionomia e materialidade com a estrutura pré-existente. [fonte]

Falta ainda apresentar a cereja no topo do bolo: o "miradouro virtual" na torre de menagem, a razão de existir de toda a estrutura que foi construída dentro da velha torre.


À chegada, somos informados que este supra-sumo do restauro no século XXI avariou pouco depois da inauguração. Provavelmente, as verbas disponíveis para esta obra não incluiam a manutenção dos equipamentos. Consola-nos saber que apesar da parvoíce caducar, o castelo remanesce.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Celorico da Beira

Após mais de duas semanas a chatearem-me, finalmente aqui está o post sobre Celorico da Beira, o primeiro local que visitámos no nosso fim de semana pelo distrito da Guarda (sem passar por lá). 









Em relação ao castelo, é tudo. Desta vez fomos como a maioria dos turistas: tirámos uma foto com o castelo e pronto, siga almoçar (com o Sr. Presidente da Câmara de Celorico da Beira).


Na verdade, bem que gostaríamos de ter visitado o castelo mas não encontrámos nenhuma porta aberta. Resta consultar as fontes do costume.

Época pré-romana - é provável que, no local existisse um castro *1 (J.Almeida,M.R.Oliveira); época romana - construção da fortaleza, tese baseada em inscrição latina encontrada em 1635 e cujo paradeiro se desconhece (L.D.V.Silva, J.Almeida,M.R.Oliveira); séc. 12 - conquista aos mouros por D. Moninho Dola; concessão de foral sem data; realização de obras no castelo com a participação dos Templários (A.V.Rodrigues); 1198 - cerco dos leoneses, por Afonso IX, e socorro prestado por Linhares, cujo alcaide, D. Rodrigo Mendes, era irmão do de Linhares, D. Gonçalo Mendes; séc. 12 - realização de obras no reinado de D. Sancho II; 1217 - confirmação do foral por D. Afonso II; 1246 - cerco do Conde de Bolonha, pelo alcaide Fernão Rodrigues Pacheco ter jurado lealdade a D. Sancho II; séc. 14 - obras de reedificação no reinado de D. Dinis e de D. Fernando; séc. 16 - realização de obras; construção de um passadiço de comunicação com o chamado Poço d'El Rei; 1762 - assalto pelos espanhóis, danificando o castelo, sendo alcaide-mor Manuel Caetano Lopes de Lavre; séc. 19 - destruição da cerca exterior das muralhas, torre de menagem(?) e parte do castelo; o recinto fortificado teria maior perímetro que actualmente, abrangendo o primeiro núcleo habitacional, propondo J. Almeida um traçado que englobava perifericamente a Torre do Relógio. [fonte]


A Torre do Relógio é uma torre de planta quadrangular, que integrava o sistema defensivo da população. Provavelmente construída no séc. XIV/XV, era residência do Fidalgo da Torre. No séc. 18 é transformada em torre do relógio, mecanismo que antes se encontrava no castelo.


 [fonte]


E pronto, foi o post possível sobre Celorico da Beira, uma terra cheia de histórias e monumentos bonitos a conhecer. Fica para a próxima. Para a despedida, deixo-vos com uma foto de um gatinho que conhecemos na visita.


Longroiva, concelho de Mêda

Longroiva parece ter tido um passado imponente, mas o que existe hoje em dia não são bem os seus monumentos - são monumentos ao que foram os seus monumentos quando ainda não o eram (apesar de nunca o terem verdadeiramente passado a ser).

Em 1883 o pelourinho foi destruído "durante a abertura da EN 331; as peças foram utilizadas em construções particulares" e em 1961 houve o "restauro da responsabilidade de Adriano Vasco Rodrigues, que, após o inventário dos edifícios construídos ou restaurados desde 1883, localizou o fuste e o capitel, sendo o local escolhido pela Junta de Freguesia" . [fonte]



Mais recentemente foi escolhido como base de catavento:


Quanto ao castelo:

1174 - construção da Torre de Menagem com hurdício a mando de D. Gualdim Pais, Mestre da Ordem dos Templários como informa a epígrafe gravada em três silhares na fachada O.; séc. 16 - torre de dois pisos e edifício que constituía os aposentos do Comendador, de dois andares com cinco divisões em cada, com chaminés em tijolo e forro interno de madeira, a que se adossavam casa de hóspedes, cozinha com forno, celeiro e estrebaria; 1733 - casas de residência do comendador encontravam-se destelhadas e em ruína, a cisterna entupida, o castelo sem portas, sobrevivendo apenas a torre; séc. 18, último quartel - o castelo começou a ser desmantelado; 1820 - 1843 - num desenho de Carvalho de Magalhães e Vasconcelos (publicado na revista universal Lisbonense, (1844 - 45) são ainda visíveis os troços da muralha da cidadela, que se prolongava para N. da torre de menagem; séc. 19, fins - transformação do castelo em cemitério. [fonte]

Parte da parede exterior do castelo sobreviveu porque foi reaproveitada como recinto do cemitério:


E a torre também permaneceu, talvez porque não a conseguiam deitar abaixo (?):


Há uma igreja e uma capela encostadas uma à outra, atrás das quais se ergue uma torre construída em 1950, e feita com a pedra da original, que ruiu nesse ano.


Já a Capela de Nossa Senhora do Torrão parece ter levado um restauro abonecado nos seus quadros a óleo:





Em Longroiva vimos por isso uma reconstrução criativa do pelourinho, um cemitério que terá correspondido a parte de um castelo, uma torre que foi feita com as pedras de uma outra, e uma recriação infantil do interior de uma capela.
Se com Platão os homens na caverna apenas podiam ver sombras da realidade que os rodeava, em Longroiva apenas podemos induzir os seus monumentos reais nas reproduções que lhes fizeram. Podíamo-nos armar em puristas e dizer que isto tudo é de muito mau gosto. Mas na verdade é kitsch português genuíno.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Vila Nova de Foz Côa

À chegada a Foz Côa apanhámos um incêndio:






Foi chato, mas lá continuámos a viagem:


Em Foz Côa chamou-me a atenção um emparedamento que passaria despercebido não fosse a atenção que lhe propositadamente é dada (nem o nº de porta falta - será por obrigação legal?)


E à Lídia chamou a atenção esta parede que revela os segredos escondidos da construção de casas de xisto.


Agora os leitores já podem construir a vossa própria casinha de xisto (estava a brincar, são construções horríveis e vão cair em cima dos vossos filhos quando estiverem a dormir).

O que mais me impressionou em Foz Côa foi no entanto a Igreja Matriz:


O portal é uma obra prima manuelina, mas fiquei fascinado quando ao entrar percebi que o lado direito da igreja estava inclinado como nunca tinha visto em nenhuma outra construção:


Será o maior testemunho do mítico terramoto de 1755 que ainda existe? (já que o Convento do Carmo faz mais pelos restauros românticos do século XIX que pelo terramoto em si)


sábado, 17 de setembro de 2016

Marialva, distrito da Guarda

Marialva é a primeira Aldeia Histórica que visitei (ficam longe) e divide-se em três núcleos - Devesa, Arrabalde e intra-muros.

A zona da Devesa fica no sopé do monte e é a mais recente. Esta é uma construção típica do concelho de Mêda:


O Arrabalde é mais antigo - fica abaixo da muralha que circunda o primitivo povoado:

 

Em 1527/32 viviam 73 morados no Arrabalde e 68 intra-muros, enquanto em 1732 eram 76 fora e 32 dentro. Nesta altura era alcaide mor o Marquês de Távora, o que se revelou desagradável já que depois da sua condenação o castelo caiu em ruínas e o espaço intra-muros foi completamente abandonado, sendo utilizado no século XX já só para espaços públicos - duas igrejas, cemitério e escola primária (na antiga câmara, que foi sede de concelho até 1855). [fonte]

O espaço intra-muros está hoje todo destruído, tirando algumas reconstruções que para bom entendedor meia parede basta.




A Torre de Menagem foi reconstruída pelo Estado Novo em 1942, e comparando com uma foto que vá se lá saber como a Lídia tirou exatamente do mesmo sítio de uma anterior (e ela não tirou assim tantas) podemos ver como são insondáveis os critérios dos restauradores:



E as ameias amigos, onde as meteram?

Há uma outra particularidade que podemos ver nesta foto, que é a aldeia estar cheia de oliveiras, plantadas pelos habitantes nas casas dos antepassados (sem conotação histórica, só mesmo pelo azeite).

Outra espécie que encontrámos dentro do recinto fortificado de Marialva foi a figueira-do-inferno, que chamou à Lídia os seus instintos básicos de agricultora e se pôs desfreadamente a colhê-la para travar a sua disseminação.


A melhor forma de ter experiências etnográficas nos lugares que visito continua a ser trazer sempre toda uma etnografada na mala do Nissan.